domingo, 28 de outubro de 2012

A FOTOGRAFIA





O pensamento longe, a lembrança de uma grande paixão dissolvida no horizonte. Quando se dá conta, está parado na janela, com o olhar à deriva, segura uma foto que certa vez tiraram, ela com a camisa da seleção brasileira e ele com uma do Che Guevara. 

Nesse tempo haviam feitos juras de amor, transavam ao som do Simply Red tocando Holding Back the Years. Deixavam essa faixa no repeat. Imaginavam como seriam os seus filhos. A casa não teria sofá, só almofadas pelo chão, vários móveis rústicos, decoração feita por objetos antigos como uma máquina de escrever na varanda, um quarto de hóspedes povoado de pôsteres de bandas de rock, só para receber as visitas, profetizavam tudo isso nessa época.

Ele falava que ela era a Linha do Equador dele, uma pequena alusão a musicalidade apaixonante do Djavan. Já ela o chamava simplesmente de Chico, já que seu nome era Francisco. Passavam noites assistindo filmes de comédia e acordavam como um casal de filme romântico, apaixonados, infestados de gozo matinal, tudo registrado pelas manchas de prazer no colchão.     

Agora ele deixa a foto de lado, retira umas cartas de amor da gaveta, lê pela milésima vez uma que ela escreveu no dia dos namorados: “Ao meu eterno homem ofereço todo a temperatura do meu corpo”, em outra, essa sem data: “Obrigada pelas horas de amor selvagem que tivemos, adoro cavalgar em você”. 

De repente, o pensamento começa a voltar, sente um calor no peito, a dor da saudade. Aos poucos ele sai do passado, cai na real, os olhos começam lacrimejar, já faz um tempo que tudo terminou, hoje está sozinho, curtindo a vida em carreira solo, só que, nesse exato momento, havia sido pego pela nostalgia do coração.

Nunca mais escutou aquela do Simply Red.

sábado, 27 de outubro de 2012

ADEUS, CAMPA, VAI COM OS ANJOS!

 

É... TEM DIAS QUE NASCEM TRISTES DEMAIS. Conheci o Tiago Campanelli Munhoz quando comecei a treinar Kung Fu com o mestre Charliton Cutrim
Lembro de quando fazia dupla com ele. Recordo dele dizendo: “Tá muito afobado Fabião. Respira melhor pra golpear melhor. Pensa com o movimento. Controla a ansiedade”. Que nobre lutador e praticante de kung fu de alto nível era o Campa.

Lembro do dia em que tirei essa foto, em um dos nossos treinos dominicais lá no Horto. Essa expressão de calma e suavidade que ele tinha, até quando treinava, e que, creio eu, acabou saindo nesse flash, retrata bem o grande Campa, a pessoa boníssima que ele foi. Pra quem o conheceu, o exemplo ficou. Vou lembrar sempre de você Campa. Sinto-me honrado em tê-lo conhecido.

domingo, 21 de outubro de 2012

REBELDE COM CAUSA E EFEITO





Ele nasceu de mãe solteira em São Francisco, nos EUA. Foi considerado por muitos o herói da classe operária. Aos 13 anos parou de estudar para trabalhar dezesseis horas por dia numa fábrica. Voltou aos estudos, mas devido o forte preconceito contra estudantes pobres, largou de vez, e tentou a sorte na "corrida do ouro" no Alasca. Aliás, soube como nenhum outro autor, eternizar em meia dúzia de clássicos da literatura americana a saga da busca pelo ouro nas gélidas terras do Alasca

Amante da aventura, levou uma vida de andarilho. Chegou a ser preso. Aos 25 anos, decidiu ser escritor. Sua produção literária segue na contracorrente de uma América capitalista e individualista. De maneira magistral, escreveu romances nos quais os temas transitam na oposição entre os valores do espírito e os bens materiais. 

Esse foi Jack London, um escritor que mudou a minha maneira de ver o mundo, assim como Mark Twain, Ernest Heminway, Jack Kerouac, John Fante e Charles Bukowski.

Além de ser um baita escritor, essa biografia de rebeldia com causa e efeito diante da sociedade cheia de regras materialistas e instituições sempre me fascinou.

Por que estou comentando sobre ele? É que hoje eu comecei a ler esse livro, "Por Um Bife e Outras Histórias de Boxeadores"  que recentemente tive a sorte de encontrar num sebo. 

Estou nas primeiras páginas, mas já saquei que é muito bom, ele não vai ficar só focando no lado de força e de esporte dos personagens, como acontece em seus outros livros, sempre rola um texto também voltado para a análise de comportamento humano diante de dramas e dilemas da vida.  

Grande Jack, não à toa está entre os meus escritores favoritos.   

terça-feira, 16 de outubro de 2012

ECO DEBATES FALA SOBRE A DEPENDÊNCIA QUÍMCA



Cena do filme "O Lutador" com Cristhian Bale no papel de um ex-boxeador viciado em drogas.)







O uso de drogas envolve homens e mulheres de todas as idades e classes sociais. De festinhas aos  ambientes corporativos, de ferramenta para aliviar pressões e tristezas ao mais puro prazer, cada vez mais o uso de substâncias químicas é amplamente praticado nas mais diversas situações da vida cotidiana.

Por ser um tema complexo e de tamanha importância, que vai da hipocrisia de parte da sociedade ao amadurecimento e seriedade de muitas pessoas que buscam enfrentar e entender esse que é um dos grandes questionamentos da humanidade, o Eco Debates de hoje traz na pauta os desafios, as verdades e os mitos da dependência química.

Para tratar do tema, o programa recebe o pedagogo e palestrante Ricardo Galhardo.

Fique ligado, hoje, ÀS 23H,

ECO TV
– canal 9 digital ou 96 analógico pela NET ABC ou veja pelo site, VAI LÁ: http://redeecotv.com.br/

domingo, 14 de outubro de 2012

A ORIGEM DA TRILHA DO ARANHA






O Anderson Silva sempre caminha para o octógono ao som de Ain’t No Sunshine na roupagem contemporânea do DMX que, diga-se de passagem, ficou legal. 

Mas essa música na versão original e no estilo mais ancestral do Bill Wrhites, ainda assim, é a minha preferida.

Aproveito a deixa para lembrar a força popular que esse clássico tem. Segundo o Wikipédia ela já teve 144 regravações. De Bob Marley a Michael Jackson. Do rei do reggae ao rei do pop, passando até pela nossa Maysa, um monte de artistas já se renderam a essa bela canção.  

Agora voltando ao nosso campeão, fica aí registrado que além do talento para lutar, um dos nossos mais ilustres Silva também tem um bom gosto musical. Dá-lhe Aranha.

domingo, 7 de outubro de 2012

ALUCINAÇÃO POÉTICA





A primeira vez que eu li este poema, Boletim do Mundo Mágico, do genial Roberto Piva, foi tão marcante, tão punk quanto uma longa viagem de mochilão na base de meros trocados no bolso de um jeans velho. Achei aqueles versos a mais pura doideira franciscana e ao mesmo tempo um tipo de sexto sentido de lucidez sobre a vida.

Lembro que eu trabalhava de representante comercial numa construtora. Nessa época eu já cultivava o hábito de andar sempre com algum livro na mochila, quando não, carregando na mão mesmo.

Na ocasião, eu tinha acabado de comprar o livro "Paranóia" do Piva num daqueles sebos do centro de São Paulo em que se  encontra de tudo, se marcar até o original do "Lusíadas". Coisa de louco esses sebos. 

O meu serviço estava adiantado, precisava matar umas horas para não chegar muito cedo no escritório. Então, sentei na escadaria do Teatro Municipal e fui, casualmente, direto na página desse poema: 

BOLETIM DO MUNDO MÁGICO

Meus pés sonham suspensos no Abismo
minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina
eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão
havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios
eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa
na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as
galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longos delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago
nos pavimentos isolados meus amigos constróem um manequim fugitivo
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a
uma calota minha alma desconjuntada passa rodando.


Roberto Piva




Nossa! Que viagem forte esse poema provocou na minha mente, versos malucos e bonitos, físicos e metafísicos, vento forte, porre solitário, um rock and roll alucinado como o som do The Doors. Nesse dia, na escadaria do Municipal, o meu juízo, que já não era muito normal, ficou girando, girando...