O pensamento longe, a lembrança de uma grande paixão
dissolvida no horizonte. Quando se dá conta, está parado na janela, com o olhar
à deriva, segura uma foto que certa vez tiraram, ela com a camisa da seleção
brasileira e ele com uma do Che Guevara.
Nesse tempo haviam feitos juras de amor, transavam ao som do
Simply Red tocando Holding Back the Years. Deixavam essa faixa no
repeat. Imaginavam como seriam os seus filhos. A casa não teria sofá, só
almofadas pelo chão, vários móveis rústicos, decoração feita por objetos
antigos como uma máquina de escrever na varanda, um quarto de hóspedes povoado
de pôsteres de bandas de rock, só para receber as visitas, profetizavam tudo
isso nessa época.
Ele falava que ela era a Linha do Equador dele, uma
pequena alusão a musicalidade apaixonante do Djavan. Já ela o chamava simplesmente de Chico, já que seu nome era Francisco.
Passavam noites assistindo filmes de comédia e acordavam como um casal de filme
romântico, apaixonados, infestados de gozo matinal, tudo registrado pelas
manchas de prazer no colchão.
Agora ele deixa a foto de lado, retira umas cartas de amor
da gaveta, lê pela milésima vez uma que ela escreveu no dia dos namorados: “Ao
meu eterno homem ofereço todo a temperatura do meu corpo”, em outra, essa
sem data: “Obrigada pelas horas de amor selvagem que tivemos, adoro cavalgar
em você”.
De repente, o pensamento começa a voltar, sente um calor no
peito, a dor da saudade. Aos poucos ele sai do passado, cai na real, os olhos
começam lacrimejar, já faz um tempo que tudo terminou, hoje está sozinho, curtindo a vida em carreira solo, só que, nesse exato momento, havia sido pego pela nostalgia do
coração.
Nunca mais escutou aquela do Simply Red.




