Acho que a estrada deveria ser um lugar sagrado, alguma
espécie de igreja, manja? Um tipo de local santificado onde os demônios não tivessem vez. Não à
toa tenho obsessões por estradas. Talvez por isso, às vezes eu sonho com uma estrada
límpida pela frente.
Pra mim a estrada é uma metáfora da vida construída
no deslocamento, ora sul, ora norte, ora Mogi das Cruzes, ora Malawi.
Uma incorporação de mudanças, aventuras, encontros e adeus.
Sou fascinado pela estrada e as suas variações: céu
azul, paisagens, horizonte, posto de gasolina e afins, sem a mínima noção
de latitude, ou longitude.
Eis a estrada, sempre um roteiro sem porto seguro
que me conduz a esmo por caminhos desconhecidos, tortuosos, labirínticos e
provavelmente sem saída.
Uma trilha não apenas quilométrica, mas sonora, às
vezes sob o som de um folk viajante do Neil Young, às vezes um triste
blues que parece soar direto do Delta do Mississipi.
A estrada é o meu único conforto, por isso,
antes de pôr o pé na cova eu boto o pé na estrada. Gosto de quando
ela sai de algum cafundó e termina em alguma praia, capturando o som das
ondas, deixando-me de frente pro mar.
Gosto da estrada porque ela passa por todos os
lugares, e sai de todos. Assim como um sujeito que toca violão num boteco
a troco de bebida e comida, a estrada não está nem aí pra nada,
apenas leva aqueles que buscam aventuras e estrelas perdidas.
Curto a estrada escrita nos livros de Jack
Kerouac, onde ela é mística, profética e, acima de tudo, sonho.

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