Em 2009, durante algumas semanas do mês de agosto, eu tive a honra de conhecer o Projeto Malawi. Fui o escriba de uma viagem humanitária, organizada por missionários da igreja Assembléia de Deus de Santo André.
Os dias que passei neste país africano mexeram muito comigo, com a minha visão de mundo, com as minhas aspirações de homem que busca viver mais próximo da generosidade e do altruísmo com o próximo.
A matéria a seguir foi publicada originalmete no blog do projeto: http://projetomalawi.blogspot.com.br/ e na extinto jornal Santo André News.
ZIKOMO KWAMBIRI! (Significa
muito obrigado em chichewa, o idioma oficial do país, junto com o
inglês). Foi isto que disse uma mulher, pulando de alegria, tão feliz
quanto um brasileiro comemorando a conquista de uma Copa do Mundo, ao
receber uma marmita que preparei no restaurante feita com o que sobrou
do almoço. Assim que me agradeceu, de maneira entusiasmada, chamou três
filhos pequenos para compartilhar o alimento. Tamanha felicidade tem
explicação, às vezes o malauiano fica três dias sem ter o que comer. O
que era resto para mim, no estômago daquela família se tornou uma ceia
farta.
E assim caminha este pequeno país, situado no sudoeste do continente
africano, sem saída para o mar, com uma extensão de 118.484 km² cuja
superfície é coberta por infinitas savanas e florestas tropicais,
cheias de aldeias tribais, formando uma nação com cerca de 14,3 milhões
de pessoas.
Lilongue
é a capital, mas a sede do governo não está lá, e sim na cidade de Blantyre,
na região sul, além disso, turisticamente falando, não tem vida
noturna, as ruas são sem iluminação e sem calçadas. Os grandes comércios
que existem não pertencem aos malauianos e sim a estrangeiros, na
maioria dos casos, indianos. Os nativos da parte central, no geral, são
sempre funcionários. Fora isso, trabalham como autônomos, em feiras e
comércio ambulante.
Malawi
é uma tristeza que,
assim como o horizonte, parece não ter fim. Segundo os dados da ONU, é
um dos países mais pobres do mundo, sobrevive com ajuda externa,
principalmente da África do Sul, do Reino Unido e de Organizações Não Governamentais.
O cenário é doloroso: miséria, fome, AIDS, vários tipos de doenças,
falta de água, infra-estrutura totalmente precária, pessoas morrendo
antes de chegarem aos hospitais... tudo isso faz parte da sofrida
história de vida da população.
E eles, sobretudo às crianças, apesar de toda calamidade, preservam uma
alegria contagiante, têm capacidade de mostrar carinho por
desconhecidos, como eu, que na condição de enviado especial, de
repórter a milhas e milhas distante da pátria verde e amarela, me senti
em casa graças à fraternidade do malauiano.
AS CRIANÇAS DO MALAWI

Hora do almoço na aldeia Mutu. A
condição choca, a cena é inaceitável aos olhos de qualquer ser humano.
O ar parado, sem vestígios de vento, o sol queimando a terra vermelha,
na qual centenas de crianças, maior parte órfãs, formam uma fila
indiana, todos munidos com um pratinho, alguns com colheres, outros
sem, destes a mão será o talher, em comum, eles carregam a fome nos
olhos.
Uma menina no meio da fila, aparentando quatro ou seis anos começa a
lamber a colher, impaciente para a tão desejada hora do almoço cuja
refeição será uma espécie de mingau que chamam de sima, feito a base de
milho e mandioca.
Como se estima que a metade dessas crianças sejam soropositivas, o
governo manda um tipo de trigo com preparo especial para dar uma maior
sustentação na alimentação.
É desta maneira que estas crianças se alimentam. Para eles não existe
café da manhã, o almoço é algo simbólico, e jantar uma raridade. A
refeição é um mistério, pode ser que apareça, pode ser que não.
Todos os órfãos dormem no chão, sobre um plástico empoeirado, num
dormitório feito de palha. Como a temperatura, normalmente, cai à
noite, ficam amontoados para amenizarem o frio. Às vezes surgem alguns
panos rasgados, e viram mantas.
PROJETO MALAWI

Atualmente as Organizações Não Governamentais e instituições
assistenciais têm cumprido um papel fundamental não só para a elaboração
de recursos e ajudas humanitárias, mas também pressionando os países
ricos para olharem com mais atenção aos problemas dos menos favorecidos.
O
Projeto Malawi, radicado em Santo André,
desenvolve programas assistenciais no país africano há mais de dois
anos. Estes programas são voltados ao crescimento de infra-estrutura e
atualmente atendem às aldeias Mutu, Modika e Mtema,
localizadas entre 25 e 50 Km da capital, em cada uma, foi construído
um poço artesiano que deve levar água potável por aproximadamente 50
anos.
Conforme informações do site da Organização Mundial da Saúde
(mapeamento de 1999), bactérias, vírus e parasitas presentes na água são
responsáveis por cerca de 4 bilhões de casos de diarréia por ano,
grupos de risco representativos encontram-se em países com difícil
acesso a água potável, a exemplo do
Malawi.
No dia 12 de agosto foi inaugurada uma escola na aldeia
Mutu
para atender as crianças da região. Antes, para chegar ao colégio mais
próximo, estas crianças precisavam andar uma extensa caminhada.
Não há como negar que os primeiros passos do
Projeto Malawi
foram bem-sucedidos, e pelos objetivos traçados, há muito mais para
ser feito. Em 2010, a idéia é implantar um sistema revolucionário de
agricultura que vem fazendo sucesso nas lavouras da Paraíba, para isso,
já foi iniciada uma parceria com a Agência Mandalla, responsável por este processo agropecuário.
“A terra precisa virar fonte de alimentação saudável, de renda, de
sustentabilidade o mais rápido possível para esse povo”, comenta
Silas Josué de Oliveira, diretor do Projeto Malawi.
"TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA"

Recentemente o Malawi apareceu na mídia brasileira por causa da morte do economista carioca Guilherme Buchman, de 28 anos, provocada por hipotermia durante escalada no Monte Mulanje.
Pelo que foi publicado nos noticiários, ele viajava pelos países mais
pobres, estudando, para conclusão de uma tese de doutorado em políticas
públicas.
O programa Esporte Espetacular da rede Globo,
fez uma homenagem, a equipe de reportagem refez a trilha e no pico
pregou uma placa com o nome dele, uma foto, e uma frase do poeta Fernando Pessoa que ele gostava: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".
Esta minha viagem só foi possível por causa do Projeto Malawi que me convidou a conhecer as obras assitencais no país, e agora, também sou colaborador do site www.projetomalawi.com.
Pessoas de visão social como Guilherme Buchman
era, instituições focadas em ajudar nações cujas pessoas parecem estar
condenadas a uma existência breve, são lições de que podemos nos
empenhar para criar um mundo melhor.
Lembro de quando o
avião decolou do aeroporto Internacional Kamuzu Banda, e a atordoante
visão da pobre terra (vermelha como o sol da bandeira malauiana), foi
sumindo da minha vista até surgir a imensidão dos céus, descobri ao
longo das nuvens, que o rosto daquelas pessoas, com olhares que clamam
por socorro, principalmente das crianças, nunca mais sairão da minha
mente. A todos eles, ofereço (confesso que envergonhado) está simples
matéria.