domingo, 30 de setembro de 2012

DEUS E OS POLÍTICOS NO TEMPO DO VOTO OU AS ELEIÇÕES, AS IGREJAS E SARAMAGO




Fica a cada eleição mais difícil escolher um candidato. O nível está cada vez pior e se não e se não bastasse o despreparo e a falta de opção ainda tem a influência das igrejas. Como bem anotou o José Simão na Folha de São Paulo: “O Brasil é um estado laico liderado por religiosos!”. 

Creio que é um grave e lamentável equívoco, e olha que não é de não é de hoje, já foi muito pior, a facilidade com que as pessoas se deixam influenciar pela religião tocante a questão política. 

É uma papagaiada total assistir a romaria que os partidos fazem para ter o apoio de denominações religiosas. 

E em tempos de eleições, isso parece já fazer parte da agenda de alguns candidatos. Chega a dar ascos ver políticos supostamente messiânicos batendo no peito para evocar purezas diante de fieis. 

O pior é que isso pode fazer diferença para decidir uma eleição. Há muita gente que segue, religiosamente, essa visão ingênua,  segundo a qual o político a ser votado é aquele que a  igreja em que frequenta está apoiando. 

Tenho muitos conhecidos que são líderes religiosos, mas desculpa a sinceridade meu amigo pastor, padre, pai de santo etc. e tal, mas é no plano das ideias, acompanhando e pesquisando - a trajetória, o histórico e o que político já fez e pode fazer - que se produzem saberes que precisam ser levados em conta na hora de escolher o candidato. 

Não vou aqui cair no senso comum dizendo que político é tudo igual. Acho que não é por aí.  Há gente bem intencionada sim e com ótimas e possíveis propostas. Mas infelizmente, é a minoria.

E o último livro que eu li do José Saramago foi o Ensaio Sobre a Lucidez

Nesse romance a crítica intelectual e ferrenha do português vai para a democracia, os governos e o sistema capitalista que por meio do sistema democrático, ainda assim, cometem atos arbitrários, corruptos, ilegítimos e até antidemocráticos.  

Ensaio sobre a Lucidez conta a história de um país imaginário em que todo mundo resolve votar em branco. Saramago narra uma revolta que se dá não por meio da violência, mas pelo voto em branco. 

Quem conhece um pouco sobre o Saramago sabe que ele tinha um pé atrás com a atual democracia que, para ele, o sistema democrático apesar de se apresentava como algo puro e incontestável era inatingível já que os partidos políticos apelavam para conchavos com empresas, bancos, mídias e tudo que é tipo de instituição, saindo do foco de benefício para a massa, da ajuda coletiva e social, indo para algo direcionado a minorias que já estão no poder. 

Ensaio Sobre a Lucidez conta a história de um país em que todo mundo resolve votar em branco. Saramago narra uma revolta que se dá não por meio da violência, mas pelo voto em branco. 

Lendo hoje sobre as eleições no jornal, numa matéria que falava sobre o apoio de igrejas a candidatos à prefeitura de São Paulo. Lembrei desse livro que, assim como em outros a exemplo do Ensaio Sobre a Cegueira, é mais uma daquelas alegorias barroquizantes onde ele introduz o conceito da cegueira como um olhar questionador sobre o mundo contemporâneo.

Como estamos aí em pleno processo eleitoral e mias uma vez com perigosas ligações não só empresariais mas também religiosas, deixo essa obra Saramago aqui no meu blog como dica de leitura.   

Longe de mim fazer aqui campanha ou defender o voto em branco. Não é isso. Eu particularmente nunca votei em branco. Mas não deixa de ser pertinente, interessante e reflexiva essa obra desse que foi um dos maiores escritores da língua portuguesa. Valeu, José!

(...) o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno conselho do governo, a pronunciar tamanha barbaridade antidemocrática, deveria ter vergonha, nem parece ministro da justiça, explodiu o da defesa, Pergunto-me se alguma vez terei sido tão ministro da justiça, ou de justiça como neste momento.”

(Ensaio Sobre a Cegueira, pag. 172)

domingo, 23 de setembro de 2012

FACEBOOK, OS MILHÕES DE AMIGOS E OS 130 QUE FICAM AFETIVAMENTE NA MEMÓRIA





A Revista Época desta semana traz como capa uma reportagem com questionamentos sobre o Facebook, do tipo: As redes sociais estão nos isolando atrás da tela do computador? As amizades estão superficiais? É possível criar amizade verdadeira pela internet e ainda cultivá-las?

Essas abordagens são feitas por meio de histórias de interações virtuais, algumas teses de pesquisadores, citações de filósofos, pensatas nocivas e positivas sobre o assunto.

Em meio aos vários dilemas que o texto traz, destaco um alerta sobre a obsessão de querer contabilizar amigos, criando uma ilusória sensação de familiaridade geral com tudo e com todos. 

A matéria apresenta a tese do psicólogo Robin Dunbar na qual conclui que o ser humano só é capaz de registrar na mente, de modo afetivo e sentimental, cerca de 150 pessoas. 

Aproveito a deixa para lembrar que já na antiguidade, os romanos ensinavam que, normalmente, a quantidade de rostos que alguém pode armazenar na memória, no sentindo de ter uma relação de amizade, corresponde à faixa de 130 pessoas. 

Não à toa que, no Império Romano, os lendários batalhões tinham a formação de 130 soldados. Com essa quantidade as centúrias mantinham, entre os seus componentes, um laço de amizade, deixando a legião mais unida e, consequentemente, mais forte e combativa no campo de batalha. 

Eu particularmente acho que é bem por aí. 130, 150 ou um pouco mais, com certeza até por questão social, metafísica e do dia ter apenas 24 horas, é praticamente impossível ter na prática elos de amizade, amor e considerarção com milhões de amigos.

Até que tenho um número alto de amigos virtuais, todavia, não posso confundir os que ficam só nos contatos “facebookianos” com os amigos de estrada, os chegados e chegadas com quem de fato registrei e registro o convívio na sua real essência.

Gosto do facebook em vários sentidos, desde manter contato com amigos distantes, passando por reencontrar velhos camaradas às divulgações de ideias. É claro que há muita merda também, mas aí cabe a cada um sublinhar o que há de bom e interessante e, principalmente, ter um certo controle, já que, na minha opinião, rouba muito tempo. E outra, não há aplicativo melhor do que o ao vivo e à cores. 

Viver só tem ritmo e beleza quando caminhamos por aí, nos momentos em que falamos com os amigos direto da superfície e da profundidade da vida. Sem essa de passar horas compartilhando e cutucando. Aí não, rsrs.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA





O Circo de Soleil que me perdoe, assim como o Maracanã lotado gritando gol, ou uma abertura de Jogos Olímpicos, mas não tem espetáculo mais maravilhoso na imensidão deste Planeta Azul do que uma mulher tirando a roupa, bem DE-VA-GAR.

A cada peça tirada, a sensação de que um mundo melhor é possível, de que existe prazer nessa vida louca. Um gesto aparentemente simples, mas fascinante. Nem carece ser uma Halle Barry, a natureza feminina tende a ser uma tempestade, feliz e arrebatadora, diga-se de passagem, quando provocada entre quatro paredes, então, nem se fala, ou sob a luz do luar que bate em seu corpo com a mesma luminosidade ao tocar na água do mar, até o sujeito mais ogro fica com a inspiração de um poeta trovador.

Nos seios da mulher o mundo fica menos confuso, diria até, mais claro, sereno como um pôr-do-sol. Entre as suas pernas não há depressão ou crise existencialista que resiste. No seu cangote, naquele momento de sussurro, a vida vira uma gostosa viagem por mares nunca antes navegados. Ali, naquela parte inferior, está escrito o epílogo da alegria do homem, pois ali ele morre e renasce.

Mesmo no final do ato, depois de toda transpiração deixada no lençol, o espetáculo parece não ter fim, ou algum cueca de plantão sugere imagem mais linda do que levantar e ver uma linda garota estendida na cama. Esse é um espetáculo, às vezes efêmero, às vezes duradouro, em outras, sentimental, ou apenas carnal, mas, com certeza, sempre alguma espécie de exaltação.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ALÉM, MUITO ALÉM, DA FRONTEIRA MUSICAL ENTRE O BRASIL E A JAMAICA






Ba-Boom tem levada dançante. Tem estilo. Tem a força dos metais. Tem a leveza do som. Tem acordes, compassos e harmonias que misturam tribos musicais. Tem suingue. Tem perspicácia na criação dos arranjos. Tem bons modos rítmicos calcados na música jamaicana.

Nessa maré de predicativos, esse grupo formado na região do Grande ABC paulista pegou uma onda própria onde surfa apresentando músicas que oscilam entre uma embalada conexão Brasil-Jamaica.

Do lado de cá, verde amarelo: o samba nos seus primórdios e o hip hop lapidado por mensagens sociais.   

Do lado de lá, da terra de Bob, o reggae, o dub e o ragga. 

De lado nenhum, um estilo bem próprio, uma dimensão bem autoral na qual o grupo bebe em fontes como o jazz sem perder a sua autenticidade

Descortinando-se nesse múltiplo horizonte sonoro a banda lançou o álbum Incendeia que seduz pela ausência de pretensão, pela roupagem de sonoridade flutuante e expressiva que chega num clima de energia acentuado pela voz firme do vocalista Bruno Buia.

Outro ponto forte são as letras, a exemplo da faixa “Quem Conta”: “Maneira de pensar/ Não pede licença/ Come lentamente/ Sua identidade, crença/ Debaixo do pano é que se esconde/ A desavença/ Quem conta a história nunca liga para a ofensa”. Os versos soam como uma reflexão sobre a maneira que se pode narrar a história de um povo.

Já na música Como Tá Kalunga? vem o alerta antropológico em sintonizar presente e passado: “Venha cá, sente comigo/ Sou todo ouvido/ Baiano velho/ Nego bem sabido/ Me conte mais desse sertão sofrido/ E o que essa história tem a ver comigo”.

Saindo de um contexto sertanejo e indo para um recorte urbano a canção Amizade Prevalece também vem introspectiva: “Meu irmão/ Realidade aqui é dura/ Miséria, sofrimento/ Passa na quebrada escura”.    

Ao todo são 11 faixas, aqui, supera-se o desafio de fazer aquele tipo de CD capaz de ser escutado da primeira à última música sem perder a empolgação e o fôlego.  

domingo, 16 de setembro de 2012

FRENTE A FRENTE COM CARAVAGGIO E O LADO SIMPLES DE TUDO





Estive ontem no Masp para ver a exposição Caravaggio e seus Seguidores. Era um desejo antigo que eu tinha em conhecer a obra do pintor italiano, a qual conhecera apenas em leituras de livros de arte.

Já fui sabendo que ele é considerado o mestre do claro-escuro, craque em direcionar a luz e jogá-la em perfeito realismo com a sombra. Também, por leitura, sabia do cenário dramático que, como poucos, conseguiu transcender em suas pinturas.

E agora lá estava eu, naquele Masp agradavelmente lotado, de estudantes mirins a senhores e senhoras ligados em cultura, frente a frente com os quadros fantásticos do grande artista.

Fiquei um tempo considerável apreciando e viajando na Medusa Murtola, quadro pintado num escudo, onde ele teve a sacada de dialogar plasticamente com a mitologia em volta desse personagem. 

Tive a sensação de que aquilo não foi coisa feita por gente, parece inacreditavelmente algo de outro mundo mesmo, tamanha a dimensão realista e fantástica da imagem. Além disso, refleti numa mensagem artística meio que avisando a impossibilidade que é olhar a arte, para não dizer a vida, sem sentir um processo de transformação.   

Outra tela que me chamou muito a atenção foi o São Jerônimo que escreve.  

 
Esta obra mostra bem que Caravaggio não era só genial e polêmico, mas que se destacava por gostar de retratar o simples em tudo que via. 

É até engraçado e admirável pensar que numa época que a Igreja Católica dona de um enorme poder, e ainda, encomendando os quadros, ou seja, pagando pra ele (risos), ainda assim, teve a ousadia de pintar um santo como São Jerônimo que, era sempre representado com a pompa e a luxúria de um cardeal imponente, nas pinceladas de Caravaggio ficou quase que sem vestes, uma figura desnutrida, com pinta de cientista maluco, bem longe do glamour canônico que o catolicismo pregava.

Confesso que fiquei admirado e gostei de conhecer tête-à-tête esse lado B, totalmente simplório das coisas que ele observava e retratava, sempre fugindo do glamour e indo para um despojamento crítico e contundente.


Por ter ficado com essa impressão, creio que não foi à toa que com tantos personagens cheios de pompa do universo católico ele buscou na parte mais humilde que é a dos franciscanos para criar esse extraordinário quadro contemplativo: São Francisco em meditação. 


Uma imagem que traz ressonâncias de profunda reflexão mística do santo diante da morte representada pela caveira que segura na mão.

No total a exposição mostrou seis telas de Caravaggio, além de outro montante de pintores que são considerados seus seguidores, daí o nome     da exposição.  

Terminada a minha visitação, tomei a direção do metrô Trianon. Já no vagão, voltei pra casa pensando não só na eternidade intacta desse gênio por meio das suas obras que atravessaram séculos, mas também no fato de um cara que nunca teve um ateliê, uma escola, nem muito menos seguiu uma corrente artística definida; corre a lenda que ele pintava no quarto, em lugares caóticos, sem a estrutura dos grandes pintores,  isto sem falar na vida conturbada e sofrida que viveu,e mesmo assim teve tantos seguidores e um lugar cativo na História da Arte.  

Talvez por isso, suas pinturas, a maioria com aquele fundo negro, de certa maneira, presentificam as atribulações, os sofrimentos e as confusões da sua trajetória. 
Sensacional. Uma das melhores exposições que já visitei. Recomendo, quem ainda não viu, corre lá!