Fica a cada eleição mais difícil escolher um candidato. O
nível está cada vez pior e se não e se não bastasse o despreparo e a falta de
opção ainda tem a influência das igrejas. Como bem anotou o José Simão
na Folha de São Paulo: “O Brasil é um estado laico liderado por religiosos!”.
Creio que é um grave e lamentável equívoco, e olha que não é
de não é de hoje, já foi muito pior, a facilidade com que as pessoas se deixam
influenciar pela religião tocante a questão política.
É uma papagaiada total assistir a romaria que os partidos fazem
para ter o apoio de denominações religiosas.
E em tempos de eleições, isso parece já fazer parte da agenda
de alguns candidatos. Chega a dar ascos ver políticos supostamente messiânicos batendo
no peito para evocar purezas diante de fieis.
O pior é que isso pode fazer diferença para decidir uma
eleição. Há muita gente que segue, religiosamente, essa visão ingênua, segundo a qual o político a ser votado é
aquele que a igreja em que frequenta está
apoiando.
Tenho muitos conhecidos que são líderes religiosos, mas desculpa
a sinceridade meu amigo pastor, padre, pai de santo etc. e tal, mas é
no plano das ideias, acompanhando e pesquisando - a trajetória, o histórico e o que político já fez e pode fazer - que se produzem saberes que
precisam ser levados em conta na hora de escolher o candidato.
Não vou aqui cair no senso comum dizendo que político é tudo
igual. Acho que não é por aí. Há gente
bem intencionada sim e com ótimas e possíveis propostas. Mas infelizmente, é a
minoria.
E o último livro que eu li do José Saramago foi o Ensaio
Sobre a Lucidez.
Nesse romance a crítica intelectual e ferrenha do português vai
para a democracia, os governos e o sistema capitalista que por meio do sistema
democrático, ainda assim, cometem atos arbitrários, corruptos, ilegítimos e até
antidemocráticos.
Ensaio sobre a Lucidez conta a história de um país imaginário em que
todo mundo resolve votar em branco. Saramago narra uma revolta que se dá não
por meio da violência, mas pelo voto em branco.
Quem conhece um pouco sobre o Saramago sabe que ele tinha um pé
atrás com a atual democracia que, para ele, o sistema democrático apesar de se apresentava como algo puro e incontestável era inatingível já que os partidos
políticos apelavam para conchavos com empresas, bancos, mídias e tudo
que é tipo de instituição, saindo do foco de benefício para a massa, da ajuda
coletiva e social, indo para algo direcionado a minorias que já estão no poder.
Ensaio Sobre a Lucidez conta a história de um país em que
todo mundo resolve votar em branco. Saramago narra uma revolta que se dá não
por meio da violência, mas pelo voto em branco.
Lendo hoje sobre as eleições no jornal, numa matéria que
falava sobre o apoio de igrejas a candidatos à prefeitura de São Paulo. Lembrei
desse livro que, assim como em outros a exemplo do Ensaio Sobre a Cegueira, é mais
uma daquelas alegorias barroquizantes onde ele introduz o conceito da cegueira
como um olhar questionador sobre o mundo contemporâneo.
Como estamos aí em pleno processo eleitoral e mias uma vez
com perigosas ligações não só empresariais mas também religiosas, deixo essa obra Saramago aqui no meu blog
como dica de leitura.
Longe de mim fazer aqui campanha ou defender o voto em branco. Não é isso. Eu particularmente nunca votei em branco. Mas não deixa de ser pertinente, interessante e reflexiva essa obra desse que foi um dos maiores escritores da língua portuguesa. Valeu, José!
“(...) o voto em branco é uma
manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra. Ou de lucidez, disse o
ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter
ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma
manifestação de lucidez por parte de quem o usou, Como se atreve, em pleno
conselho do governo, a pronunciar tamanha barbaridade antidemocrática, deveria
ter vergonha, nem parece ministro da justiça, explodiu o da defesa, Pergunto-me
se alguma vez terei sido tão ministro da justiça, ou de justiça como neste
momento.”
(Ensaio
Sobre a Cegueira, pag. 172)





